Problema, Propósito e Ampla Visão

Para empreender, existe uma parte prática muito clara, para a qual temos milhares de ferramentas, cursos, vídeos, conteúdos abertos. Você pode procurar por qualquer assunto necessário para crescer o seu projeto (seja marketing, vendas, growth, programação, processos, modelagem ou o que for), e com certeza você vai encontrar alguém falando sobre isso.

Depois de trabalhar anos com pessoas empreendedoras no começo de seus projetos, ficou bem fácil de ver que os maiores gaps que existem vêm das competências socioemocionais. Não estamos tão acostumados a falar sobre isso, e muito menos temos o mesmo vasto ferramental para desenvolvê-las no dia a dia. E, ainda por cima, acabam vendendo essa ideia de que, para ter sucesso, é só replicar uma “fórmula”, fazer um “canvas”, “postar no insta”, investir em anúncios. Frustração, teu nome é empreendedorismo.

Eu gosto muito desse assunto, e acho que ele é tão importante quanto aprender as ferramentas. É como não pular o treino das pernas enquanto você ganha massa muscular, sabe? Está tudo conectado: não é possível falar de uma coisa sem a outra. Então resolvi trazer para cá alguns textos para trabalhar competências importantes para empreender — e também alguns atalhos que eu vi nesses 15 anos de modelagem de negócios.

Meu pai sempre me contava uma história sobre quando ele trabalhava em uma indústria nos anos 80. Uma vez, ele e outros diretores viajaram para outros países, para conhecer novas máquinas de corte de talheres. Então descobriram uma máquina que fazia o mesmo corte que eles utilizavam, porém a própria máquina fazia a finalização do corte, sem que fosse necessário uma pessoa para conferir e finalizar o corte do talher, como era na fábrica deles.

Ele falada dessa história quando queria ilustrar sobre “investimento versus custo”, pois uma máquina que fizesse esse tipo de trabalho era um investimento que se pagava a longo prazo, porque diminuía os custos de produção e de contratação.

(Claro, podemos conversar muito sobre a questão da automatização das linhas de produção e sobre empregabilidade, mas esse tipo de trabalho automático e repetitivo, com certeza, independentemente da posição que tivermos, vai ser robotizado.)

Recentemente, uma situação me fez ver outro lado desta história: a questão de pensar no .

O final da linha de produção era a finalização do corte do talher. Se alguém precisava cuidar de como tinha sido feito aquele corte e depois fazer a finalização do corte, é por causa da forma como as coisas estavam organizadas. O método ou processo aqui era o principal. Então, para resolver o problema (o corte final), eles haviam criado uma solução (uma pessoa que ficava naquele ponto).

Quando , abrem-se mais possibilidades, porque vemos o todo em vez de ver apenas uma parte. Daí faz sentido fazer um investimento desse tamanho: você não está solucionando mais o problema do final da linha de produção, você está investindo no objetivo da linha inteira, que é bem maior. Fazer um talher nacional de qualidade e de valor acessível era o norteador.

Embora as duas estratégias cheguem ao mesmo lugar — um talher bem finalizado -, apenas uma delas foca em entender o todo acima das partes, e em trazer resultados de longo prazo.

Tem uma frase de Russel L. Ackoff que diz o seguinte: “O sucesso em resolver problemas exige encontrar a solução certa para o problema certo. Fracassamos com mais frequência porque resolvemos o problema errado do que porque encontramos a solução errada para o problema certo”.

Para mim, esse é o sentido de pensar uma visão de futuro antes de começar a trabalhar em qualquer projeto de negócio: qual é o meu ponto de partida e onde eu quero chegar com isso? Se eu olhar para cada problema no meio da “linha de montagem” do meu projeto, eu vou criar uma solução para cada um, e acabo perdendo a visão mais ampla necessária para que eu enxergue porque eu criei essa “linha de montagem” aqui em primeiro lugar.

A , que 42% das startups falham porque criaram um produto sem necessidade do mercado. Isso significa que, durante o desenvolvimento do negócio, pensaram mais em resolver os problemas do meio da linha de produção (como estavam fazendo) do que em enxergar se o que eles estavam construindo (a linha de produção) estava de fato baseado em um problema real.

Eu sempre digo que problema e propósito são dois pontos em uma linha. Se você souber qual problema quer resolver, você pode fazer uma construção em cima e descobrir o propósito. E se souber claramente onde quer chegar, você pode fazer a engenharia reversa e chegar no problema que você quer resolver.

Enxergar de forma mais ampla é algo que empreendedores de sucesso conseguem fazer com bastante clareza, mas se engana quem pensa que é uma capacidade que as pessoas “nascem sabendo” ou não. Ter uma visão ampla exige exercício e experiência. Experiência, aliás, é uma função do tempo e do espaço que você tem para aprender, multiplicado pela força da sua criatividade (mas isso é outro papo).

Ampla Visão

Muito se fala sobre Visão Sistêmica. A Ampla Visão é uma mudança de perspectiva em relação a isso.

Visão sistêmica consiste na habilidade em compreender os sistemas de acordo com a abordagem da Teoria Geral dos Sistemas, ou seja, ter o conhecimento do todo, de modo a permitir a análise ou a interferência no mesmo. A visão sistêmica é formada a partir do conhecimento do conceito e das características dos sistemas.

Embora a visão sistêmica seja primordial para o desenvolvimento das organizações, seu foco é a capacidade de enxergar o todo no momento presente. A Ampla Visão engloba a Visão Sistêmica, mas vai além, olhando para o futuro (aquilo que ainda não está lá, mas pode estar) e suas conexões com o presente. Tem que usar óculos um pouco diferentes.

Para Fortalecer a Ampla Visão

A Ampla Visão é uma competência, e pode ser desenvolvida como um músculo. Para isso, é preciso exercitar:

1) A capacidade de enxergar o sistema como um todo.
Como as coisas são atualmente? Quais são os processos utilizados? Quais são os métodos utilizados? Quais as relações e conexões entre os processos, pessoas, resultados? É preciso um olhar analítico. Uma sugestão? Desenhe.

2) A capacidade de enxergar tendências e possibilidades.
Conseguir enxergar um ponto de vista futuro com clareza depende muito da capacidade da pessoa de imaginar futuros possíveis. É preciso ter a sensibilidade de perceber sinais fracos, entender a maneira como as ondas de tendências estão se movendo, ou aquilo que está mudando a maré. Uma sugestão? Crie cenários sem julgamentos. Pergunte: e se?

3) Possuir claro senso do porquê.
O propósito daquilo que está sendo criado age como um norteador para todas as decisões. Conseguir criar e manter claro na mente qual é o motivo por trás de todo aquele projeto que está sendo construído é uma característica essencial. Eu gosto do conceito de mantra, do Guy Kawasaki, para manter sempre em mente: aquilo que você repete até chegar à iluminação.

4) Ver a equipe e seus componentes como “um”, e ver cada parte separada do todo.
Aqui está o pulo do gato: uma liderança que não é boa só em enxergar os processos, mas em ver as pessoas dentro dos processos, e aquilo que as pessoas estão sentindo, fazendo e esperando, e como cada pessoa se conecta com o todo. E, acima de tudo, que prioriza essas pessoas e a forma como elas agem. A sugestão? Empatia.

Fez sentido para você? Teve algum insight? Deixa um comentário, vamos trocar uma ideia sobre tudo isso!

Este conteúdo faz parte de uma série de artigos, criados para ajudar empreendedores a tirar suas ideias da cabeça e começar a fazer. Leia sobre:

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Acredito em desenvolver pessoas e sociedades através da troca de conhecimentos e do crescimento coletivo. Tudo isso é parte de um objetivo ainda maior: ajudar as pessoas a serem mais independentes e, portanto, mais felizes. Para fazer isso, construí o . Segue lá!

Ajudo líderes da Nova Era a desenvolver um cinto de ferramentas (de competências, metodologias e processos) para fazer a mudança que o mundo precisa.

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